quarta-feira, 28 de março de 2012

Tragédia

Caminhávamos pela estrada asfaltada que corta a floresta. Era noite escura. À direita, à beira da estrada, cadáveres de pessoas, bichos mutilados, muitos a queimar. Poucos de nós tínhamos condições de caminhar. Chorávamos o quanto podíamos e não podíamos muito. O caminho ainda seria longo, sobretudo, para os mais jovens, mas eles pareciam ter mais força e acho que tinham mesmo.
- O que teria acontecido ao motorista do caminhão de bois? O que o fez vir contra nosso ônibus?
Só alguns de nós conseguíamos nos perguntar isso.
- Que diferença faria saber?
- Algumas respostas, por mais que não justifiquem, ao explicar elas confortam, numa espécie de misericórdia a qualquer das partes.
À entrada da cidade, à qual chegávamos, havia uma igreja. A maioria de nós, já poucos, se sentiu socorrido. As pessoas daquela igreja pareciam ter algumas respostas e, melhor que isso, pareciam querer nos confortar. Eu me sentia falso diante delas e dispensei a sua ajuda.
- Teria eu aprendido a viver sem respostas? As angústias seriam iguais para todos?
- Certamente não. Quem faz perguntas vive mais angustiado e quem não as faz encontra a verdade, nem sempre verdadeira ou reconfortante.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

sábado, 24 de setembro de 2011

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Nietzscheando

Brincando de jogar bola
não criei um inimigo,
não fiquei doente à toa
nem fiquei de mal comigo.

sábado, 27 de agosto de 2011

Em débito


(Em memória de D. Rita Furtado)

Sinto que a minha vida
é cada vez menos minha.
Devo muitos favores.
Por mais que, a quem devo, não me cobre,
minha dívida é ética, estética, filogenética.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Mais um desengano da vida

− Você gostou das flores que eu mandei pra você?
− Sim, muito.
− Viu quanta coisa bonita existe nessa vida?
− E vi o quanto elas duram pouco também.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sobre Budapeste, de Chico Buarque.

 O texto abaixo surgiu a partir da fala de Adão Jildo Viotto, no seminário final do curso de elaboração de projetos, realizado pelo departamento de Línguas Vernáculas da Unir. Esse texto apenas intenta ampliar a discussão e inserir algumas interpretações.

Segundo Leyla Perrone-Moisés, “Uma das principais características da transformação sofrida pelas obras literárias, a partir do fim do século XIX, é a multiplicação de seus significados, que permitem e até mesmo solicitam uma leitura múltipla”. O contato com o romance Budapeste de Chico Buarque não deixa dúvidas que a leitura desse romance não pode ser outra que não leitura múltipla. A começar pelo livro enquanto objeto.
Ao abrir o livro, é possível perceber que a contracapa parece ser reflexo da capa, como num espelho, duplicando a sua imagem. No entanto, assim como a vaca se olhava no espelho e se via borboleta, à altura do nome do escritor do livro, Chico Buarque, aparece o nome de um personagem do romance, também escritor, José Costa.
Por que um nome tão comum quanto José estaria ali como um reflexo alterado do nome do autor do romance? Por que Costa? Se um livro é um corpo, a contracapa é as suas costas. Estaria o personagem por trás do autor? Ou seria o contrário? Costa, segundo o minidicionário Aurélio, também pode significar “litoral, região banhada pelo mar”. Região pela qual se teria acesso ao continente? Talvez, depende da costa ou do Costa.
Outra pluralidade de significado salta ao se falar de um deus “desumano”. Pela recorrência de uso do vocábulo “desumano”, se chegará primeiro àquilo que é cruel, capaz de maldades. Tal ideia fugirá da imagem cristã hodierna que se tem: um deus bom e misericordioso. Contudo, o termo ainda pode ser encarado como o não-humano, dirigindo-se a algo mágico, sobrenatural e extraterreno ou, até mesmo, ficcional. Esse deus desumano = não-humano pode ser bom como os anjos ou mau como os demônios, ambos seres igualmente ficcionais, ou pode ainda ser uma mistura dos dois, tal como monstros que são bonzinhos ou príncipes que são malvados, isto para citar a cinematografia de animação moderna.
Os pontos acima citados são apenas dois dos muitos e múltiplos significados que podem ser encontrados na obra de Chico Buarque, Budapeste.